
O poeta, compositor, pesquisador e escritor Nei Lopes é o personagem escolhido para abrir uma série de biografias sobre brasileiros negros com importante papel na cultura, política e no movimento pela igualdade racial. O livro "Nei Lopes", assinado pelo jornalista Oswaldo Faustino e publicado pela Selo Negro Edições, apresenta a personagem em suas diferentes facetas.
"Nei é uma usina de criação e de pesquisa", avalia Faustino, em entrevista à Rede Brasil Atual. "Principalmente nos dois últimos discos, ele intensifica a fase das crônicas cariocas, mostrando muito do cotidiano muito bem-humorado", conta.
Nascido no Rio de Janeiro em 1942, Nei Lopes teve infância similiar a milhares de jovens do subúrbio. Estudou direito e ciências sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e sempre manteve profundos laços com o samba.
Faustino explica que seu interesse por Nei Lopes é antigo o que o havia levado a reunir composições do sambista para um projeto de pesquisa originalmente concebido para uma dissertação de mestrado. A proposta era buscar formas de aplicar as letras ao estudo de história da cultura africana, exigida pela lei 10.639/2003, nas salas de aula.
Com o desafio de buscar informações sobre a trajetória do sambista, Faustino revela que contou com a generosidade do biografado. "Trocamos muitos e-mails e, por sua generosidade que é tamanha, quase todos os dias tinha lá: 'antes que você me pergunte' e escrevia diversas histórias", conta. A maior parte das conversas se deram por telefone e e-mail, e apenas duas entrevistas presenciais foram realizadas.
Foi mais do que suficiente para a produção do livro de 120 páginas com as visões de mundo e a narrativa de episódios marcantes de sua vida, como a composição de sambas-enredo, a relação com o Salgueiro e a atuação no movimento negro, como assessor do senador Abdias Nascimento. "O problema é que o Nei precisava de uma biografia por semana, porque sempre ele tem novidade, um novo livro, um novo samba", diverte-se Faustino.
"Pensar a obra de Nei Lopes quer no samba, quer na literatura, é pensar em uma ótica banto, como diz ele, ou afrobrasileira, para nossa cultura. Não estamos mais no tempo de ficar no 'xororô' de que o negro não é reconhecido em sua contribuição cultural. Estamos já abrindo as portas para que as pessoas entendam que essa contribuição afrobrasileira para a cultura nacional é tão cotidiana que às vezes passa despercebida, não é só por racismo e eurocentrismo.
Coordenada por Vera Lúcia Benedito, socióloga e consultora da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, a coleção tem lançamentos também sobre Abdias Nascimento e Sueli Carneiro. A linha editorial da coleção Retratos do Brasil Negro, da editora Selo Negro, era se voltar ao público jovem.
O jornalista Oswaldo Faustino é co-autor de livros como "A cor do sucesso" e obras infantis, além de colaborador da revista Raça Brasil. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo.
--> Texto publicado por Anselmo Massad em http://www.redebrasilatual.com.br/, em 23/09/2009. Foto de Márcia Moreira.