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sexta-feira, 14 de maio de 2010

"13 de maio... dia de quê?!"

Pois é, alguns até tem uma vaga lembrança mas, para a maioria esmagadora das pessoas a quem dirigi a pergunta ontem, tratava-se de um dia como outro qualquer.
Custo a acreditar!
O 13 de maio, aniversário da abolição da escravatura no Brasil, "Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo", como decretado recentemente, nada representa para a maioria dos brasileiros?
É o que parece. Nem de longe as ruas do Rio de Janeiro nessa quinta-feira de céu azul, lembravam o dia festivo em que se reconheceu oficialmente o direito à liberdade dos negros escravos no Brasil!
Vejam vocês!
À procura por reportagens, notícias, enfim, qualquer referência à data na imprensa escrita e telejornais... nada! Apenas um artigo, quase esquecido na seção Opinião do Leitor, do Jornal O Globo, curiosamente escrito por um professor de História, como eu indignado com o esquecimento da nação!
Resolvi, então, compartilhá-lo com vocês. Espero que gostem.
Boa leitura e reflexão!

"Hoje, 13 de maio de 2010, li mais um artigo sobre a questão das cotas e das políticas raciais do atual governo, escrito pelo acadêmico Demétrio Magnoli. Devo dizer logo de saída que concordo com a afirmação de que a política do confronto não é a melhor solução para o problema do preconceito racial no Brasil. Contudo, negar a profundidade desta questão (e não estou afirmando que Magnoli faz isso), também, em nada contribui para a superação deste problema.
Resolvi escrever este texto para relatar uma situação que ocorreu comigo ano passado, e que pode jogar um pouco de luz sobre o assunto. Sou professor de História, atuante no ensino superior, na formação de professores da área, e, desde 2008, professor da rede municipal da cidade do Rio de Janeiro. Devo dizer, também, que sempre fui contra a política das cotas raciais, colocando-me como favorável às cotas sociais, por achar que estas seriam mais justas e corrigiriam uma deformidade do sistema de acesso às universidades públicas no Brasil.
Ao final do terceiro bimestre do ano passado, apliquei aos meus alunos(as) do nono ano uma avaliação que continha a seguinte questão: "Observe a letra da poesia satírica publicada em 'O Monitor Campista' em 1888: 'Fui ver pretos na cidade / que quisessem se alugar. / Falei com essa humildade: / - Negros querem trabalhar? / Olharam-me de soslaio, / E um deles, feio cambaio, / Respondeu-me arfando o peito: / - Negro, não há mais não: / Nós tudo hoje é cidadão / O Branco que vá pro eito.[...]' Escreva uma redação falando sobre as consequências da escravidão que ainda podemos sentir na sociedade brasileira".
Baseado no que havia trabalhado com eles em sala, esperava que surgissem respostas estabelecendo a ligação entre a situação dos ex-escravos e a pobreza no Brasil contemporâneo. É lógico que esperava que aparecessem também redações falando sobre o preconceito racial no Brasil. Para a minha surpresa, a totalidade das respostas tratou do preconceito racial no Brasil, das experiências de discriminação sofridas por eles , ou por pessoas ligadas a eles. Se ressentiam não apenas do preconceito vindo "de cima", dos mais abastados, que se expressa combinado com o preconceito contra a pobreza, mas daquele que aparece nas relações cotidianas, nas "brincadeiras" de colegas, de vizinhos, das ofensas racistas proferidas em momentos de tensão.
A escola onde leciono fica no bairro de Bangu, e tem como clientela a população de várias comunidades pobres que o circundam. A maioria dos alunos(as) é composta de negros e mulatos. É interessante notar que mesmo os alunos(as) brancos seguiram a mesma direção em suas redações, o que pode servir para a reflexão sobre o caráter social da cor.
Tocado por esta resposta dos alunos(as), resolvi modificar todo o planejamento para o quarto bimestre, para estudar com eles a luta contro o preconceito racial, abordando o fenômeno nos Estados Unidos e no Brasil. Logo surgiu uma dificuldade, o livro didático adotado pela escola (o "Projeto Araribá"), que considero de razoável qualidade, não trazia nada sobre o assunto. Os autores do livro devem ter considerado o tema irrelevante para se compreender a sociedade contemporânea. Como historiador, isso não servia como desculpa para mim, e pesquisei os temas em outras fontes e fizemos o trabalho.
A receptividade foi muito boa. Utilizei como avaliação a elaboração de cartazes que tinham como o tema "O dia nacional da consciência negra", a partir dos quais fizemos uma exposição nos murais do colégio. O resultado foi muito positivo, não só pela qualidade do material, como pelo envolvimento dos alunos(as), que demonstraram um interesse no conteúdo das aulas, que até então não havia acontecido.
Refletindo sobre todo este processo, constatei uma grande diferença na percepção que eu tinha sobre o racismo na sociedade brasileira e a que os meus alunos(as) possuíam. Eu, como a maioria dos brancos de classe média, mesmo os mais progressistas e conscientes, percebemos o racismo como algo eventual. No Brasil, para nós, apesar do forte preconceito racial, não haveria a disseminação das praticas racistas. Estas seriam apenas eventuais. Os meus alunos(as) me mostraram, que não é bem assim, para eles estas práticas são cotidianas. Eles as enfrentam todos os dias. A minha convicção contra a política de cotas raciais ficou definitivamente abalada. Não sei se as cotas vão resolver o problema, acredito que não, mas com certeza terão o efeito de demonstrar a estes jovens que a sociedade brasileira é para eles também. Que as suas dificuldades e necessidades estão sendo atacadas, e que a sociedade reconhece que falhou com eles, e que precisa reparar este erro. Voltando ao artigo de Magnoli, não é necessário "ensinar o ódio", os meus alunos já aprenderam sobre ele em seu cotidiano.
Para terminar, é lamentável que em toda a edição do jornal (segunda metropolitana) não haja nenhuma referência à abolição da escravatura (com a exceção ao próprio artigo citado). Não estou acusando o jornal de preconceito, ele apenas reflete a marginalização que a data sofre hoje em dia. Os militantes da causa negra preferem o dia 20 de novembro, e os contrários às cotas devem achar melhor não colocar lenha na fogueira.
Eu, no entanto, acredito que um caminho possível para a superação do impasse, em relação à data, seja uma nova interpretação, já apontada pelos historiadores acadêmicos. A abolição não foi o dia em que "a Isabel a heroína, assinou a lei divina" (como dizia um samba antigo), mas sim o dia em que a sociedade escravista capitulou frente a resistência dos negros escravos, que se recusavam a continuar trabalhando para seus senhores, e frente a resistência dos brancos progressistas que exigiam igualmente o seu fim. O Treze de Maio não foi um ato de benevolência, foi uma conquista, e como tal deve ser sempre lembrado.
Prof. Ricardo Santa Rita Oliveira"

(artigo retirado de O Globo, 13/05/2010, http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2010/05/13/treze-de-maio-o-preconceito-racial-916572875.asp)

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